
“Kevin foi buscar novamente a garrafa de vodka e, depois de a pousar na bancada ao lado do copo, acercou-se por trás dela. (…) Ela sentia-lhe o hálito no pescoço e fez um esforço para não se retrair quando ele lhe assentou as mãos nas ancas. Sabendo de antemão o que tinha de fazer, pousou a faca e virou-se para ele, enlaçando-lhe os braços a volta do pescoço. Beijou-o (…) ciente que era esse o seu desejo e só deu pela pancada quando a sentiu atingi-la na face. Ardeu-lhe, quente e inflamada. Como a ferroada de uma abelha… Kevin estendeu a mão para a voltar a agarrar mas ela deu meia-volta para fugir. Estava prestes a agredi-la, e ela não tinha para onde ir. Atingiu-a com a força e rapidez, o punho disparado como um pistão à zona lombar. Katie arquejou, a visão a tolda-se-lhe nos cantos dos olhos, sentindo-se como se a tivessem apunhalado. Caiu no chão, com o rim a arder, as dores a propagarem-se pelas pernas e pela coluna.”
“Até que a morte nos separe”
Parece simples afirmar algo do género perante um padre e testemunhas, e até que nos convencemos ao inicio que tudo pode ser um mar de rosas, perfeito, até termos cabelos brancos, andarilho e uma prótese dentária. Ficar no terraço ao fim da tarde, sentados na poltrona a olhar o horizonte sem fixar nada em especial, desejando só que todos os poucos dias que nos restam sejam assim…
Sim, de facto é fácil imaginar este cenário. Se tudo fosse normal, deveria ser este o percurso de um casal: casar, ter filhos, educá-los até que eles saem de casa e por fim desfrutar do recanto que nos pertence até que o nosso corpo se transforma noutra coisa qualquer.
Mas nem sempre o “e viveram felizes para sempre” é para sempre… pelo menos para ambas as partes. Por vezes os votos que se trocam no altar são esquecidos quase tão rapidamente quanto foram ditos. E então aparecem tantas Katies e tantos Kevins…
É possível o amor assim? É possível o amor que tenha na sua essência violência, seja ela de qual tipo for? A resposta parece óbvia mas por incrível que pareça há muitas Katies que não têm a coragem de fugir e denunciar que o “amor” atingiu proporções desmesuradas…
Mas ainda mais pertinente: será possível o amor depois de uma vida de socos, insultos, nódoas negras e humilhação? Mais uma resposta aparentemente óbvia mas à qual se pode obter respostas tanto surpreendentes como maravilhosas.
Katie aparece envolta em mistério. Bonita, tímida, misteriosa, capta rapidamente a atenção de Alex. Os dias passam, as semanas também e com elas cresce a proximidade entre ambos, de uma forma tão simples, com gestos tão banais, que qualquer um de nos provavelmente nem daria conta, Por vezes não são precisos grandes jantares, viagens enormes e presentes caros para se mostrar o quanto uma pessoa é importante. Pequenas coisas como caçar borboletas, tal como Alex e Katie, simples olhares que, silenciosos, ensurdecem com o que transmitem. Pequenos momentos que parecem eternidades quando se explica o significado que têm.
Quando me disseram que não teria de escrever esta apreciação crítica senti-me tão aliviada. Não é fácil escrever sobre o que se sente, muito menos dar-mos a opinião acerca de assuntos como a violação da integridade física de uma mulher, porque me é totalmente impossível imaginar o que esta Katie, e qualquer Katie sentiu ao ser possuída sem querer, espancada pela pessoa com quem partilha o tecto, a mesa e a cama.
Vieram dizer o contrário, que tínhamos de escrever, e pensei que não iria conseguir sequer escrever uma frase; a situação é tão sórdida que nem sequer consigo ter opinião coerente. Como é que alguém espanca outra pessoa, já sem se colocar o motivo, e em seguida diz que a ama e a possui de forma igualmente violenta? Pior, como é que alguém se sujeita tanto tempo a situações destas? Como é que alguém morre em situações destas? Foi a primeira vez que estive tanto tempo para escrever alguma coisa, sinto-me completamente presa, os dedos não se mexem, as palavras não me vêm à cabeça, as ideias fogem tão rapidamente como aparecem. Tantos minutos, talvez horas, que parecem anos, eternidades a ler e reler as frases feitas, se que nada assome, sem que nada apareça e permaneça.
Talvez não haja nada para dizer. Talvez o objectivo não seja falar nem escrever…
Mas como escreveu Nicholas Spaks “Tu vês-te como uma pessoa incapaz de escapar (…) Eu vejo a mulher corajosa que conseguiu escapar” a vida é como um carrossel onde só temos oportunidade de viajar uma vez, e despende de cada um de nós se a viagem vai ser a melhor ou se vamos cair na primeira curva acentuada. E, apesar de se ter desequilibrado, Katie segurou-se e voltou a apreciar a viagem, o que me deixou orgulhosa, apenas pelo facto de ver que ainda há mulheres com a coragem de Katie para fugir e para voltar a amar. Mulheres capazes de encarar a vida depois de a verem quase escapar, de levantar a cabeça e seguir em frente, deixar tudo para trás e começar do zero, deixar alguém entrar de novo no seu coração, ama-las, respeitá-las… desfrutar da viagem para a qual só temos um bilhete não reembolsável.
“Ficaste sem nada Alex…
Sem nada não (…) Tu estás sã e salva. Isso é que importa.”
“Até que a morte nos separe”
Parece simples afirmar algo do género perante um padre e testemunhas, e até que nos convencemos ao inicio que tudo pode ser um mar de rosas, perfeito, até termos cabelos brancos, andarilho e uma prótese dentária. Ficar no terraço ao fim da tarde, sentados na poltrona a olhar o horizonte sem fixar nada em especial, desejando só que todos os poucos dias que nos restam sejam assim…
Sim, de facto é fácil imaginar este cenário. Se tudo fosse normal, deveria ser este o percurso de um casal: casar, ter filhos, educá-los até que eles saem de casa e por fim desfrutar do recanto que nos pertence até que o nosso corpo se transforma noutra coisa qualquer.
Mas nem sempre o “e viveram felizes para sempre” é para sempre… pelo menos para ambas as partes. Por vezes os votos que se trocam no altar são esquecidos quase tão rapidamente quanto foram ditos. E então aparecem tantas Katies e tantos Kevins…
É possível o amor assim? É possível o amor que tenha na sua essência violência, seja ela de qual tipo for? A resposta parece óbvia mas por incrível que pareça há muitas Katies que não têm a coragem de fugir e denunciar que o “amor” atingiu proporções desmesuradas…
Mas ainda mais pertinente: será possível o amor depois de uma vida de socos, insultos, nódoas negras e humilhação? Mais uma resposta aparentemente óbvia mas à qual se pode obter respostas tanto surpreendentes como maravilhosas.
Katie aparece envolta em mistério. Bonita, tímida, misteriosa, capta rapidamente a atenção de Alex. Os dias passam, as semanas também e com elas cresce a proximidade entre ambos, de uma forma tão simples, com gestos tão banais, que qualquer um de nos provavelmente nem daria conta, Por vezes não são precisos grandes jantares, viagens enormes e presentes caros para se mostrar o quanto uma pessoa é importante. Pequenas coisas como caçar borboletas, tal como Alex e Katie, simples olhares que, silenciosos, ensurdecem com o que transmitem. Pequenos momentos que parecem eternidades quando se explica o significado que têm.
Quando me disseram que não teria de escrever esta apreciação crítica senti-me tão aliviada. Não é fácil escrever sobre o que se sente, muito menos dar-mos a opinião acerca de assuntos como a violação da integridade física de uma mulher, porque me é totalmente impossível imaginar o que esta Katie, e qualquer Katie sentiu ao ser possuída sem querer, espancada pela pessoa com quem partilha o tecto, a mesa e a cama.
Vieram dizer o contrário, que tínhamos de escrever, e pensei que não iria conseguir sequer escrever uma frase; a situação é tão sórdida que nem sequer consigo ter opinião coerente. Como é que alguém espanca outra pessoa, já sem se colocar o motivo, e em seguida diz que a ama e a possui de forma igualmente violenta? Pior, como é que alguém se sujeita tanto tempo a situações destas? Como é que alguém morre em situações destas? Foi a primeira vez que estive tanto tempo para escrever alguma coisa, sinto-me completamente presa, os dedos não se mexem, as palavras não me vêm à cabeça, as ideias fogem tão rapidamente como aparecem. Tantos minutos, talvez horas, que parecem anos, eternidades a ler e reler as frases feitas, se que nada assome, sem que nada apareça e permaneça.
Talvez não haja nada para dizer. Talvez o objectivo não seja falar nem escrever…
Mas como escreveu Nicholas Spaks “Tu vês-te como uma pessoa incapaz de escapar (…) Eu vejo a mulher corajosa que conseguiu escapar” a vida é como um carrossel onde só temos oportunidade de viajar uma vez, e despende de cada um de nós se a viagem vai ser a melhor ou se vamos cair na primeira curva acentuada. E, apesar de se ter desequilibrado, Katie segurou-se e voltou a apreciar a viagem, o que me deixou orgulhosa, apenas pelo facto de ver que ainda há mulheres com a coragem de Katie para fugir e para voltar a amar. Mulheres capazes de encarar a vida depois de a verem quase escapar, de levantar a cabeça e seguir em frente, deixar tudo para trás e começar do zero, deixar alguém entrar de novo no seu coração, ama-las, respeitá-las… desfrutar da viagem para a qual só temos um bilhete não reembolsável.
“Ficaste sem nada Alex…
Sem nada não (…) Tu estás sã e salva. Isso é que importa.”