“Ali estavas tu, então, tão nova que parecias irreal, tão feliz que era quase impossível de imaginar. Ali estavas tu, exactamente como te tinha conhecido. E o mais extraordinário é que, olhando-te, dei-me conta que não tinhas mudado nada… como nunca mais te vi, ficaste assim para sempre, com aquela idade, com aquela felicidade, eterna, desde o instante em que te apontei a minha Nikon e tu ficaste exposta, sem defesa, sem segredos, sem dissimulação alguma.”

Como diz o autor "primeiro parece fácil, é o coração que arrasta a cabeça, a vontade de ser feliz que cala os medos e as dúvidas. Mas depois é a cabeça que trava o coração, as pequenas coisas que parecem derrotar as grandes, um sufoco inexplicável que aparece no lugar onde antes estava a intimidade”. È fácil pensar que não é assim, que nada nem ninguém consegue destruir a nossa racionalidade nem dissuadir-nos. Mas se até Pessoa se cansou de ser racional, quem somos nós senão meros mortais à mercê das “leis fatais/Que regem pedras e gentes”?
Margarida Rebelo Pinto disse que “não há nada mais fácil que começar uma relação”, e ela é que tem razão. No início é tudo novo, excitante, aliciante, vimos do nada e alcançamos uma felicidade que acreditamos ser extrema; descobrimos que podemos existir noutra pessoa, é fascinante as coisas que se descobrem: os mesmos desportos favoritos, os mesmos filmes ou musicas e até as mesmas colecções. Sim, não há dúvidas que tem razão, no inicio é tudo fantástico.
Mas quem disse que a vida é um mar de rosas esqueceu-se de dizer que todas as rosas têm caule, e todos os caules têm espinhos. Sim, no início são tudo pétalas, de muitas cores, tamanhos, texturas e feitios, mas sendo a vida um ciclo, as pétalas murcham, e os espinhos aproximam-se, picam-nos e, como num acto reflexo, acordamos e percebemos que as pétalas não passaram de sonhos e ilusões. Como disse esse grande génio que foi Pablo Picasso, “bom mesmo é o início, porque logo depois começa o fim”, nem todas as pétalas são de plástico para durar eternamente, e até mesmo essas desbotam com o sol, aparecem alguns seres que as corroem ou até mesmo o próprio tempo as destrói, e com elas vão os risos, os olhares, os momentos de intimidade, em que cada segundo e cada toque contam. E o que fica? Nada, um nada maior do que aquele que existia antes de começarmos a subir essa escada que nos leva a uma dimensão ilusória de felicidade extrema, onde tudo é bonito. Ficam as lágrimas, e as palavras que ficaram por dizer, as que foram ditas sem pensar e que não há meio de as apagar nem da memória nem do coração. Ficam as lembranças dos momentos a dois, onde a palavra “nós”, em todo o seu significado, era incondicional.
Mas como nem tudo são discussões e zaragatas, também o “excesso de tempo” pode ditar o afastamento de duas pessoas. E a verdade é que a Cláudia morre! Ela morre no fim, assim, sem aviso, sem mais nada. E o que ficou depois disso? Fotografias, lembranças, recordações de uma viagem imprevisível mas tão intensa que ninguém diria que se debatiam ali dois estranhos, num deserto infindável que tem tanto de maravilhoso como de assustador. Ela morre e ele escreve-lhe, pronto.
Ele escreve-lhe porque gostou dela desde o início, quando a captou no primeiro dia a rotular latas para a viagem, feliz, genuinamente feliz, genuinamente feliz. Ficou assim, exposta, no auge dos seus 21 anos. Gostou dela desde o momento em que arrumou o jipe e saíram de Lisboa, rumo ao deserto, sem saber em o que os esperava. Gostou dela desde o primeiro dia, em que “a sua gargalhada infantil” o contagiou, a sua “cara de miúda” o agarrou. Gostou dela e ela gostou dele, com a sua postura excessivamente protectora, com a sua mania de quem sabe sempre tudo, contra a postura dela, descontraída, a fazia gracejar, o que o deixava profundamente irritado.
Gostaram um do outro, e aprenderam a respeitar-se mutuamente, e a viver com defeitos um do outro. Aprenderam a acatar as ideias um do outro mas sobretudo aprenderam a respeitar os silêncios, onde só a plenitude do deserto imperava. Aprenderam a ficar calados, a dar tempo, e a saber esperar, a saber admirar o deserto, tão imponente que os silenciava só com a paisagem, mas tão confidente que era capaz de guardar todos os segredos, bem como as histórias daqueles dois, a cumplicidade das gargalhadas, a intimidade dos olhares, as vidas expostas tão fielmente como a areia que o jipe calcava…
Mas a verdade é que ela morreu! A Cláudia morreu! E ele não soube de nada, só muito depois… Ela morreu e ele escreve-lhe, e ficam “de contas saldadas”. Ela morre e ele escreve-lhe, porque gostou dela desde o início, no deserto, onde só a pureza dos sentimentos existe e os guia… mais nada.
“No teu deserto” é uma carta na qual se expõe o que não se tem coragem para dizer no momento, e que traduz o que Charlie Chaplin um dia disse:

“ A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.”

Não deixe nada por dizer…